terça-feira, 1 de outubro de 2013

Vocação é coragem

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Dom José Francisco Rezende Dias
Arcebispo de Niterói (RJ)
O mês de agosto é dedicado a pensar nas vocações. Vocação é onde a Igreja se apoia. Se não houver gente que se sinta chamada e quem responda ao chamado, se não houver coragem suficiente para isso, será difícil pensar em Igreja. Como diz o Papa Francisco, Igreja não é um clube nem uma ONG. Igreja é um tecido social constituído de fios, linhas e cores que são pessoas, que um dia se sentiram chamadas a fazer parte dessa tessitura, e responderam ao chamado. Alguém chama e alguém responde: esse é o começo de qualquer ideia que se possa ter de Igreja. E sempre foi assim.

Se você procurar na Bíblia vai encontrar inúmeros exemplos de gente chamada por Deus. Um dos mais interessantes é o caso de Davi. A história de Davi não começa no campo de batalha com Golias. Não! Na Bíblia, tudo é às avessas, ao contrário das previsibilidades. Se você pretende encontrar alguma coisa previsível, não será ali. A Bíblia é só pra quem gosta de altas emoções.
Tanto que você acaba de cruzar com um velho sacerdote, nas montanhas de Judá, andando devagar por um desfiladeiro, estrangulado de angústia e medo. Um novilho o segue com dificuldade. Belém está à sua frente. E a ansiedade, dentro dele. Gente do campo nota sua presença. Aqueles que conhecem seu rosto sussurram seu nome. Quem ouve o seu nome se vira para fitar seu rosto.
Samuel! Sua missão é encontrar e sagrar um novo rei para Israel, porque o rei atual, Saul, se perdera num delírio de grandeza. Todos se arrepiam quando ele chega. Profetas não visitam Belém. Mas ele os acalma. Diz que veio oferecer um sacrifício a Deus e convida Jessé e seus filhos para se juntarem a ele. Esse era o motivo!
A cena foi hilariante. Jessé passa a exibir seus filhos: Eliabe, Aminadabe... Um por um... e ninguém. Sete filhos desfilaram, nenhum deles foi escolhido.
Jessé, você não tem oito filhos? – pergunta Samuel. Tenho o caçula, mas ele está cuidando das ovelhas – responde o pai. E é ali que Davi – o caçula de Jessé – se encontra: no pasto, com o rebanho.
O que levou Deus a escolhê-lo? “O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, Deus vê o coração” (1Sam 16,7). E Deus viu um adolescente, no meio do mato, no anonimato. Quando ele chegou, olhos humanos viram um rapazote entrar em casa, com a urgente necessidade de um banho. Mas foi dele que Deus disse a Samuel: É este! Levante-se para ungi-lo. Viram?
As coisas nunca foram diferentes. Abraão era indeciso, Isaac era frágil, Jacó, trapaceiro. Moisés era gago, Rute, a avó de Davi, sequer pertencia ao Povo da Aliança. Entre os chamados por Jesus, um o negou, outro o traiu, outro tinha ideias terroristas, e dois eram crianças mimadas procurando sucesso. Que coragem Deus precisa ter!
E você? E o seu lugar? Ele ainda está vazio? Deus precisa ter coragem. Que coragem... você precisa ter?

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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