quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O fundamento bíblico da Primazia de Pedro

IR. EDUARDO DA COSTA, LC
Uma das contendas que mais divide os Católicos dos Ortodoxos e dos evangélicos é a primazia do Bispo de Roma sobre todos os demais bispos do mundo. Em outras palavras, a questão da autoridade continua sendo hoje causa de divisão para os cristãos.
 De fato, a experiência no trato com conversos ao catolicismo demonstra que, uma vez aceitada a autoridade de Roma, todas as demais divergências doutrinais são superadas com maior facilidade, como podem ser os sacramentos, Maria, os Santos, etc.

 Portanto, um primeiro passo é explicar as palavras de Cristo em Mt 16, 16, quando confere as chaves do reino a Pedro e buscar o seu fundamento no Antigo Testamento. Um segundo passo, que não será tratado neste artigo, é explicar como foi entendida a primazia de Pedro pelos Padres da Igreja e pela comunidade cristã primitiva.
 Para poder compreender a primazia de Pedro e a autoridade que lhe foi outorgada por Cristo, temos que ambientar-nos no contexto cultural judeu do tempo de Cristo e descobrir toda a profundidade das suas palavras em Mt 16, 17-19: "Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isto, e sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.".
Cristo vivia em uma cultura monárquica, e as suas palavras nesta passagem devem ser compreendidas dentro deste contexto. Cristo é Rei, e em Mt 16 nomeia Pedro seu representante. Ao mesmo tempo em que evoca uma profecia de Isaías, onde o Rei Ezequias remove de Sobna as chaves da casa de Davi e as entrega ao seu novo sucessor Eliacim (Is 22, 22): "Porei sobre os seus ombros a chave da casa de Davi: quando ele abrir, ninguém fechará; quando ele fechar, ninguém abrirá.". Vejamos como esta profecia nos pode ajudar a compreender melhor estas palavras de Nosso Senhor e o significado das “chaves”.
 Em primeiro lugar, recordemos que São Mateus escrevia o seu evangelho a um público judeu, que esperava a vinda do Messias para restaurar o reino davídico e liberar Israel do julgo romano. Isso explica porque neste evangelho, Jesus é apresentado como “Rei”. Esta palavra, por exemplo, aparece 17 vezes, direta ou indiretamente relacionada a Cristo, e a palavra “Reino” aparece 51 vezes. Sem dúvida, o evangelista Mateus quer ajudar-nos a abrir os olhos a uma realidade importante.
 Eliacim (Cf. 2Re 18, 37) é o mordomo ou vizir do reino de Israel e Judá. Como de costume naquele tempo, todos os reinos possuíam um cargo administrativo análogo ao de primeiro-ministro que conhecemos hoje. Basta recordar também outra passagem do Antigo Testamento onde o Faraó constitui José administrador de todo Egito (Cf. Gn 41-47) e lhe confere todo poder exceto o seu próprio trono.
 No reino de Israel não era diferente. Aquele que exercia este cargo levava como símbolo as chaves do reino, que representavam o poder do rei delegado a este funcionário real. No caso do Egito, o símbolo era um anel.
 Agora, nenhum judeu que escutasse estas palavras de Is 22 ou de Mt 16 ficaria confundido sem saber o seu significado, muito pelo contrário, qualquer judeu ordinário que as escutasse, compreenderia perfeitamente de que se tratava. Cristo, sendo da linhagem de Davi (Mt 1, 1), é o sucessor legítimo do seu trono. Ele está estabelecendo o seu reinado messiânico, e evoca esta passagem para designar o seu vizir.

A analogia com o episódio de José também ilumina as palavras de Cristo em Mt 16. José foi escolhido pelo Faraó a causa de uma revelação divina. Também Cristo escolhe Simão por ter revelado a sua natureza divina "Tu es o Cristo, Filho do Deus Altíssimo". Paralelamente como José recebe um novo nome do Faraó para a sua nova incumbência, também Cristo, para significar a nova missão de Simão, lhe chama Pedro, "pedra", firme na fé como uma rocha para confirmar a todos os seus irmãos (Jo 21,15-17).
 As chaves ainda hoje são símbolo de poder, se alguma vez você teve a experiência de perder as chaves da sua casa ou do seu carro entenderá bem porque existe esta relação entre poder e chaves. No contesto bíblico de Is 22 e Mt 16, as chaves são símbolo também de autoridade jurídica e doutrinal. Cristo é o detentor das chaves do Reino dos céus (Ap 3, 7-8) e, em Mt 16 as delega a Pedro, seu vigário. Um oráculo do Senhor anunciava que Eliacim receberia a autoridade do reino de Israel. Assim também no Novo Testamento, Cristo, fundando o seu Reino, restaura tanto o reino davídico quanto o ofício de vizir e confere a Pedro a autoridade para guiar visivelmente o povo da nova aliança.
 Muitos aceitam que Cristo tenha conferido tal poder a Pedro. Porem, que dizer dos 264 papas que já sucederam a Pedro na sua cátedra. Também o atual Papa, Bento XVI, possui o poder das chaves?
 Temos que compreender que a exemplo do reino de Israel e do Reino do Egito, vizir se tratava de um cargo, e caso estivesse vacante, um novo deveria ser eleito. É como se morresse o presidente do Brasil, todos nos preocuparíamos de imediato para que um novo presidente fosse eleito e continuasse a representar e governar o nosso país.
 Evidentemente que Cristo, ao eleger Pedro como o seu vigário, não esperava que com a morte do apóstolo, no ano 64 da nossa era, desaparecesse o cargo. Pelo contrário, à medida que a Igreja crescia e se expandia, mais importante se tornava tal ministério, e não o oposto. A autoridade das chaves, portanto, continua a ser exercida pelo Papa.
 Para fortalecer mais este argumento, analisemos o caso de Moisés. Ele recebeu uma revelação divina no monte Sinai e foi infalível no seu ensinamento. Deus lhe entregou os mandamentos e lhe deu autoridade para interpretá-los e para guiar o povo de Israel, sentado sobre a sua cátedra “julgando o povo todo o dia” (Ex 18, 13). Ofício que continuava no tempo de Cristo (MT 23, 1-3).
 Igualmente Pedro, recebe uma revelação divina: “não foi carne ou sangue que te revelaram isto, e sim o meu Pai que está nos céus”, e Cristo lhe outorga as chaves e a autoridade para interpretar as Escrituras e guiar o povo da nova aliança. Assim o Papa ainda hoje, desde a cátedra de Pedro, continua a ensinar e guiar o povo de Deus.
 Tanto os israelitas da antiga aliança como os católicos, povo da nova aliança, reconhecem a autoridade da Sagrada Escritura e uma tradição legitimamente representada na autoridade posta por Deus. Ambos reconhecem uma hierarquia, e possuíam uma hierarquia antes de possuir a Sagrada Escritura (Antigo e Novo Testamento foram autoritativamente compilados em cânones). Ambos reconhecem o caráter sucessivo do ofício autoritativo de ensinar.
 O Papa, Vigário de Cristo, exercitará sempre a autoridade das chaves assistido pelo Espírito Santo, e será sempre sinal visível da unidade cristã e da promessa de Cristo de acompanhar a sua Igreja até o fim dos tempos (Mt 28, 20).

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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