sábado, 6 de novembro de 2010

Êxodo 2, 11-22 : A luta contra as Estruturas de Morte

11Nesses dias, Moisés, já crescido, saiu para junto de seus irmãos e observou as suas corvéias.
Viu um egípcio bater num hebreu, um de seus irmãos. 12Virou-se para todos os lados e, vendo que não
havia ninguém, matou o egípcio e o escondeu na areia.

13No dia seguinte, saiu de novo: viu dois hebreus brigando. Então disse ao culpado: “Por que bates em
teu companheiro?” 14O homem respondeu: “Quem te estabeleceu como chefe e juiz sobre nós? Pensas que vais
me matar como mataste o egípcio?” Moisés ficou com medo e disse a si mesmo: “O caso já é do conhecimento
de todos!”
15Faraó ouviu falar do caso e procurou matar Moisés. Moisés, porém, fugiu da presença do Faraó.
Estabeleceu-se na terra de Midian e se assentou à beira do poço.
16O sacerdote de Midian tinha sete filhas. Vieram tirar água e encher os bebedouros para matar a sede
do rebanho de seu pai. 17Vindo, porém, os pastores para expulsa-las daí, levantou-se Moisés, socorreu-as e deu
água ao rebanho. 18Voltando elas para junto de Reuel, seu pai, ele lhes disse: “Por que voltastes tão cedo, hoje?”
19Responderam: “Um egípcio nos livrou das mãos dos pastores; foi ele que tirou água para nós e deu de beber
ao rebanho!” 20Ele disse às suas filhas: “Mas onde é que ele está? Por que deixastes o homem? Chamai-o! Que
venha comer!”
21E Moisés aceitou estabelecer-se junto a esse homem, que lhe deu Siporá, sua filha. 22Ela deu à luz um
filho. Moisés o chamou de Guershom – “migrante por lá” – porque dizia ele: “Tornei-me um migrante em terra
estrangeira!"
Contexto Literário
O Texto Sagrado em evidência é uma perícope. Chamamos assim, uma vez
que se trata de um texto que possui sentido em si, de forma que pode ser
compreendido independentemente do que lhe antecede e do que lhe sucede. O que
queremos dizer é, que se trata de um “recorte” que apresenta uma mensagem
completa, um conteúdo coerente, sem estar submisso à mensagem anterior como
também à posterior a ele.
No mesmo capítulo 2, nos versículos 1-10, é-nos apresentado o nascimento
de Moisés e seu acolhimento na casa de Faraó, por parte da filha deste último.
Termina o versículo 10 com a “onomação” do menino, ao qual a filha do Faraó
chama de Moisés, relacionando o nome com o fato de tê-lo achado nas águas.
Se tomamos o versículo 23, ainda do capítulo 2, e seguimos adentrando o
capítulo 3, vamos perceber que existe aí outro episódio, onde vê-se o grito do povo
oprimido, a morte do Faraó e o chamado teofânico que Moisés recebe para ser guia
de libertação do povo.
Entre o nascimento e infância de Moisés (2, 1-10) e o seu chamamento por
Deus (2,23-3,6) está o trecho da nossa discussão (2, 11-22), que nos apresenta o
relato em que Moisés assassina um egípcio opressor, e uma vez censurado por
outro, foge de medo, para escapar das mãos do Faraó, se estabelecendo na terra de
Midian, onde lhe é dada como esposa a filha do sacerdote daquele lugar, com a qual
tem um filho que chama de Guershom.
Num primeiro momento, observamos a filha de Faraó que dá nome a um
menino. Com este fato é concluído o relato sobre a infância de Moisés, e dá-se a
abertura para a narração de outro texto, com outro fato independente, que se
encerra também com a “onomação” de outra criança, agora filho de Moisés, dando
abertura para o início de um terceiro texto. Por isso, podemos afirmar que Ex 2, 11-
22 é uma perícope.
Diante desta afirmação podemos continuar nosso estudo, analisando a
estrutura paragráfica do texto e , em seguida, a estrutura frasal de cada parágrafo.
Tentaremos apresentar as subdivisões internas do texto em questão, bem como a
relação entre as frases em cada subdivisão, ou seja, como estas estão organizadas
entre si.
Nosso texto está dividido em seis parágrafos, pelo menos. O critério que
usamos para a determinação do final de cada um deles, bem como o início do
seguinte, foi o da observação da mensagem no que respeita as finalizações com
sentido completo, ou seja, as frases que dão como que um fechamento num
determinado assunto, de maneira a não ficar lacunas.
Agora passamos a observar frase por frase em cada um dos parágrafos.
1o parágrafo
11Nesses dias, Moisés, já crescido, saiu para junto de seus irmãos
e observou as suas corvéias.
O primeiro parágrafo sugere-nos o título da perícope. É voltado para ele que
se remete todo o texto.
“Suas corvéias” se refere a “seus irmãos” da frase anterior e primeira da
perícope. As corvéias não são de Moisés, mas dos irmãos dele. As duas primeiras
frases remetem-se diretamente uma a outra. Aquele que observou foi o mesmo que
saiu: os dois verbos, sair e observar, se referem ao mesmo sujeito: Moisés .
2o parágrafo
Viu um egípcio bater num hebreu, um de seus irmãos.
12Virou-se para todos os lados ,
e vendo que não havia ninguém,
matou o egípcio e
o escondeu na areia.
Na frase “Viu um egípcio bater num hebreu, um de seus irmãos” há a
repetição de “de seus irmãos” da primeira frase da perícope. O hagiógrafo parece
querer acentuar bem esta expressão, como também, explicar que “um de seus
irmãos” é de um hebreu.
A frase “e vendo que não havia ninguém” aparece como que a explicação da
ação realizada na frase anterior “virou-se para todos os lados” : para ver foi que
virou-se; tendo visto, age conforme as frases “matou o egípcio” e “o escondeu na
areia”.
Esta última frase relaciona-se diretamente com a anterior a ela : Moisés não
somente mata, mas mata e esconde. Remetem-se, ainda, estas duas frases à já
citada “viu um egípcio bater num hebreu, um de seus irmãos”, onde é apresentado o
motivo pelo qual Moisés executa tais ações. A última frase deste parágrafo dá
seqüência à afirmação da antecedente e conclui o parágrafo.
3o parágrafo
13No dia seguinte, saiu de novo:
viu dois hebreus brigando.
Então disse ao culpado:
“Por que bates em teu companheiro?”
14O homem respondeu:
“Quem te estabeleceu como chefe e juiz sobre nós?
Pensas que vais me matar
como mataste o egípcio?”
Moisés ficou com medo
e disse a si mesmo:
“O caso já é do conhecimento de todos!”
“No dia seguinte” no início deste parágrafo, indica o ponto de partida de outro
assunto e, por isso, não permanece no parágrafo anterior. A afirmação de que “saiu
de novo” remete-nos à “saiu para junto de seu irmãos”, onde saíra a primeira vez.
A frase “viu dois hebreus brigando” é semelhante a “viu um egípcio bater num
hebreu” do terceiro parágrafo: Moisés “viu brigando”, porém, sai de cena o egípcio e
entra um outro hebreu.
No trecho ”então disse ao culpado: ‘Porque bates em teu companheiro?’ O
homem respondeu: ‘Quem te estabeleceu como chefe e juiz sobre nós? Pensas que
vais me matar, como mataste o egípcio?’”, observamos uma seqüência dialogal. Os
verbos “disse” e “respondeu” nos asseguram isto.
O verbo “bater” aparece novamente na frase “Porque bates em teu
companheiro?”: não entre adversários, como na frase ”viu um egípcio bater num
hebreu, um de seus irmãos”, mas entre “companheiros”.
As frases “Pensas que vais me matar ” e “como mataste o egípcio” estão
relacionadas às frases “matou o egípcio” e “escondeu na areia”, localizadas no
segundo parágrafo. A frase “como mataste o egípcio” apresenta-se contrariamente à
certificação feita na frase “e vendo que não havia ninguém” . E é na frase “o caso já
é do conhecimento de todos” que há a reafirmação da “como mataste o egípcio”.
“Moisés ficou com medo” é conseqüência, apesar de aparecer antes, da
afirmação “o caso já é do conhecimento de todos” . E esta afirmação fecha, de certa
forma, o terceiro parágrafo, dando espaço para um novo assunto.
4o parágrafo
15Faraó ouviu falar do caso e
procurou matar Moisés.
Moisés, porém, fugiu da presença do Faraó.
Estabeleceu-se na terra de Midian e
se assentou à beira do poço.
“Faraó ouviu falar do caso” refere-se aos fatos apresentados em “matou o
egípcio” e “escondeu na areia” , como também na afirmação que está subtendida em
“como mataste o egípcio”. Há agora a “inversão de papéis”, que fica clara em
“procurou matar Moisés”.
A frase “Moisés, porém, fugiu da presença do Faraó”, parece dar continuidade
à frase “Moisés ficou com medo”. A conjunção adversativa “porém”, no entanto, liga
a primeira diretamente às frases “Faraó ouviu falar do caso” e “procurou matar
Moisés”.
O verbo “fugiu” da frase “Moisés, porém, fugiu da presença do Faraó” tem
como conseqüência os verbos “estabeleceu-se” e “assentou-se” das frases
“estabeleceu-se na terra de Midian” e “se assentou à beira do poço”. A primeira
indica o ambiente do refúgio, ao passo que a segunda, o estado do que foge.
5o parágrafo
16O sacerdote de Midian tinha sete filhas.
Vieram tirar água
e encher os bebedouros
para matar a sede do rebanho de seu pai.
17Vindo, porém, os pastores para expulsa-las daí,
levantou-se Moisés,
socorreu-as
e deu água ao rebanho.
18Voltando elas para junto de Reuel, seu pai, ele lhes disse:
“Por que voltastes tão cedo, hoje?”
19 Responderam:
“Um egípcio nos livrou das mãos dos pastores;
foi ele que tirou água para nós
e deu de beber ao rebanho!”
20Ele disse às suas filhas:
“Mas onde é que ele está?
Por que deixastes o homem?
Chamai-o!
Que venha comer!”
Tem-se o início de outro assunto na frase “O sacerdote de Midian tinha sete
filhas”.
O trecho de três frases “Vieram tirar água e encher os bebedouros para matar
a sede do rebanho de seu pai” narra a ação seqüenciada das “sete filhas do
sacerdote” apresentadas na frase com a qual inicia-se o quinto parágrafo. Os verbos
se seguem, exigindo cada um seu complemento e exigindo um ao outro.
O anseio afirmado em “para matar a sede do rebanho de seu pai” só é
realizado em “e deu água ao rebanho”.
A frase “levantou-se Moisés” transporta-nos à frase “se assentou à beira do
poço” do quarto parágrafo. O verbo “levantou-se” aponta a ação anterior “assentou”.
O local de onde “levantou-se” está definido : “beira do poço”.
“Socorreu-as” tem como sujeito o mesmo da frase anterior “levantou-se
Moisés”, e como predicado o mesmo da frase “o sacerdote de Midian tinha sete
filhas”. O verbo “socorreu-as” remete-nos à frase “vindo, porém, os pastores para
expulsá-las daí” da qual é conseqüência.
Nas frases que compreendem o trecho “Voltando elas para junto de Reuel,
seu pai, ele lhes disse: ‘Por que voltastes tão cedo, hoje?’ Responderam: ‘Um
egípcio nos livrou das mãos dos pastores; foi ele quem tirou água para nós e deu de
beber ao rebanho!’ Ele disse às filhas: ‘Mas onde é que ele está? Por que deixaste o
homem? Chamai-o! Que venha comer!’”, observamos uma outra seqüência dialogal,
agora entre as personagens apontadas na frase “O sacerdote de Midian tinha sete
filhas”.
“Um egípcio nos livrou das mãos dos pastores” reafirma o acontecimento
narrado em “socorreu-as”. O verbo “livrou” aparece como sinônimo do verbo
“socorreu”. Ainda, nesta frase, “um egípcio”, com relação a Moisés, contradiz “seus
irmãos” das frases “Nesses dias Moisés, já crescido, saiu para junto de seus irmãos”
e “Viu um egípcio bater num hebreu, um de seus irmãos” .
As frases “foi ele quem tirou água para nós” e “e deu de beber ao rebanho”
repetem a mesma afirmação das frases “para matar a sede do rebanho de seu pai” e
“e deu água ao rebanho”.
As frases “Mas onde é que ele está?” e “Por que deixastes o homem?” são
seqüenciadas e interrogativas, ao passo que as frases “Chamai-o!” e Que venha
comer!” são seqüenciadas, mas exclamativas.
6o parágrafo
21E Moisés aceitou estabelecer-se junto a esse homem,
que lhe deu Siporá, sua filha.
22Ela deu à luz um filho.
Moisés o chamou de Guershom – “migrante por lá” –
porque dizia ele:
“Tornei-me um migrante em terra estrangeira!"
A frase “e Moisés aceitou estabelecer-se junto a este homem” está
relacionada com o convite expresso na frase “Que venha comer”, como também,
com o fato narrado nas frases “Estabeleceu-se na terra de Midian e assentou-se à
beira do poço”. Estas últimas apontam o ato de “estabelecer-se” na terra. Agora o
estabelecimento é mais preciso: é “junto a esse homem”, que é apresentado na
frase na primeira frase do 5o parágrafo.
“Sua filha” , Siporá, é uma das sete apresentadas no início do 5o parágrafo.
As frases formam uma seqüência mais direta.
“Dizia ele” refere-se a Moisés e não a Guershom, da frase anterior.
A frase “Tornei-me um migrante em terra estrangeira” remete-nos diretamente
às frases “estabeleceu-se na terra de Midian” e “Um egípcio nos livrou das mãos dos
pastores” (afirmando sua origem estrangeira).
Contexto Histórico
Tentaremos agora situar historicamente o “nosso texto”, apresentando
inicialmente alguns elementos concretos, que uma vez identificados e explicados,
mesmo que muito resumidamente, favorecem nossa compreensão do contexto,
proporcionando-nos pontes que nos aproximam da realidade buscada através da
leitura da perícope.
Moisés Nome de origem egípcia, provavelmente vem de ms أ , que quer
dizer “dar à luz”. Outros personagens egípcios trazem no nome esta raiz: Tutmósis,
Ramsés, e outros.
Apesar de seu nome ser mencionado mais do que 700 vezes no Antigo
Testamento, temos poucas informações certas sobre sua pessoa. Ninguém mais
nega sua existência histórica, mas um estudo crítico terá de distinguir entre aquilo
que ele foi realmente, e aquilo que dele fizeram certas tradições.
Não há informações extrabíblicas a respeito deste homem. E aquilo que nos é
fornecido pela Bíblia não é homogêneo. Porém, o que dele se diz no Pentateuco é
de maior importância para os críticos que as menções feitas a ele em outros livros.
‘Moisés não é uma figura histórica no sentido em que foram Davi e Salomão”. Isso
não quer dizer que não existiu ou que não teve seu papel fundamental na fundação
de Israel. No entanto as tradições com relação a ele são fruto de reconstruções
fantasiosas dos narradores, que não podiam encontrar respostas para certos
questionamentos acerca de alguns detalhes de sua vida, até porque séculos
separaram os acontecimentos históricos da época em que os primeiros textos
começaram a ser fixados.
Faraó Título Bíblico dos reis egípcios. No Egito a palavra significa “a maior
casa”. O exemplo mais antigo em que a palavra indica o próprio rei e não o seu
palácio (a maior casa), data apenas do século XIV a . C, do tempo de Acnaton.
Os Faraós mencionados normalmente no Antigo Testamento são: Ofra,
Necaó, Sesac, Soa, Terhaka (Zare). Outro são mencionados sem ser nominados
em: Gn 12, 15-20; Gn 40-47; Ex 1,8 (provavelmente Seti I 1302-1292); Ex 2,23
(provavelmente Ramsés II 1292-1225); 1 Rs 11,14 – 12 (Amenemepet 1026-976 ou
seu sucessor).
Hebreus Este nome aparece, geralmente, quando aplicado a israelitas por
estrangeiros (Gn 39, 14. 17; 41,12; Ex 1, 16-19; 2, 6. 9) ou por israelitas quando
falam de estrangeiros (Gn 40,15; Ex 2,7; 3,18; 5,3; Jn 1,9). É usado também pelo
narrador hebreu, mas quase sempre em contexto que se refere às relações dos
israelitas com estrangeiros (Gn 14,13; Ex 1,15; 2,11 . 13; 1 Sm 13, 3-7).
Discutiu-se por muitos anos p problema da identidade dos hebreus com os
hapiru, mencionados em vários escritos antigos. A questão ainda não foi definida,
porém, através de documentos antigos, referentes a seus serviços militares (dos
hapiru) para determinado rei ou ataques a comunidades, temos uma pista de que
este povo era formado de guerreiros e , dessa forma é improvável que fossem um
povo nômade, dedicado ao pastoreio, como acreditamos que eram os hebreus.
“No Antigo Testamento, Hebreu parece claramente ser um termo étnico, e
não a designação de uma posição social. Assim é difícil identificar os hebreus
bíblicos com os hapiru”. Uma vez que “aceita-se que o nome hapiru não é um nome
gentilício, mas um apelido... Hapiru seria um termo jurídico, indicando a situação,
perante a lei, de homens que por qualquer motivo se vendiam como escravos”.
Corvéias Trabalho forçado, à beira do mínimo para a sobrevivência física
e social. O Estado (Egito) é sustentado por uma ideologia que afirmava o faraó e
seus protegidos como participantes do poder divino e fonte elemento necessário
para a salvação. Isso favorecia com que os grupos subjugados não se rebelassem
contra o faraó e seu esquema de governo. “O rendimento do trabalho está integrado
num sistema administrativo de planejamento e controle através da hierarquia dos
funcionários da corte real e do templo”. Não é escravidão no sentido estrito, pois
este serviço é prestado com base em regulamentos legais que excluíam a servidão,
mas a situação nos faz definir amplamente como tal, não só a nós, mas aos próprios
que a ele foram submetidos: “o ritmo de trabalho era de nove dias de trabalho e um
de descanso... O salário anual do operário simples, equivalia a um boi”. “Segundo Ex
5, o faraó agravou as condições de trabalho, determinando que os operários
transportassem eles mesmos a palha que, cortada, foi adicionada como argamassa
ao barro do Nilo para a produção de tijolos, secados ao sol, para o lugar de
trabalho”.
Irmãos Moisés, num determinado tempo, se reconheceu um hebreu (de
fato era filho de hebreus)), apesar de ter sido criado na casa de faraó, entre os
egípcios. Daí o narrador dizer que ele “saiu para junto de seus irmãos” , irmãos
hebreus.
Chefe Termo geral, usado para diversas categorias de autoridades:
chefes/ príncipes dos filisteus, dos israelitas, etc.
Juiz Originalmente o verbo “safat” significa: resolver uma contenda entre
dois oponentes. Já que tal decisão indicava aquele que estava com a razão , “safat”
significa seja “defender o direito de alguém” , seja “condenar alguém”. Não se trata
de juiz no sentido atual da palavra. Segundo Horzberg o verbo “safat” teria
significado governar. Num segundo modo de ver, este verbo é interpretado como
“salvar, ocasionalmente, numa situação perigosa”.
Midian Além de espaço geográfico (para além do deserto, ou talvez como
parte remota do deserto), é também uma entidade política que “passeia” por vários
momentos da história de Israel (Jz 6, 1-6; 6,3; 8,10; 8,11). Ainda (Num 22 – 24; 23,
3-4 . 7; 31). “No relato do Êxodo, Midian aparece como lugar de refúgio para Moisés,
e seu sacerdote como aliado e conselheiro dos israelitas”.
Sacerdote O termo hebraico é “kohen”, de etimologia discutida. Indica
tanto o sacerdote de Javé como o de outros deuses. A palavra não tem forma
feminina. Em Israel nunca houve sacerdotisas, como entre outros semitas. Quando
se fala no sacerdote de Javé, usa-se com muito mais freqüência o termo “levita”,
mas nem sempre com o mesmo sentido.
O sacerdócio, geralmente, era hereditário. Subdividia-se em número muito
grande de classes com funções especializadas; muitas das quais são obscuras. Era
chefiado por um grão-sacerdote. Incluía adivinhos e magos.
No Egito, pelo menos ocasionalmente, eles (os sacerdotes) eram isentos de
impostos e como também de trabalhos forçados. Às vezes exerciam também o cargo
de juízes e magistrados.
Reuel ( = amigo de Deus). É o nome do sogro de Moisés, o sacerdote de
Midian, que em alguns textos é apresentado com o nome de Jetro.
Siporá Filha de Reuel e esposa de Moisés. Em hebraico significa “ave”. As
tradições do Antigo Testamento não são muito claras sobre ela. Teria, segundo o
texto de Ex 4, 24-26, chamado Moisés de esposo assassino.
Guershon A etimologia e o significado são incertos. Nos textos o nome é
explicado por uma etimologia popular, “que em hebraico se diz de uma pessoa que
está num lugar sem estar integrada na sociedade do lugar”. É filho de Moisés e
Siporá.
Tendo apontado alguns elementos e procurado, resumidamente, situa-los, de
certa forma, “definindo-os”, queremos agora olhar com maior profundidade para o
texto e colher dele situações concretas e históricas (agora não só elementos, mas
situações).
Pretendemos indicar quatro situações, que tentaremos desenvolver.
Poderíamos encontrar outras situações concretas, bem como outros argumentos
que nos permitem afirma-las, mas parece-nos que, por hora, as que apresentaremos
são suficientes para nos localizarmos historicamente com relação ao texto. É claro
que, com um estudo mais apurado e uma pesquisa mais substanciosa, poderemos
descobrir e até mesmo discutir sobre outros elementos , outras situações, outras
opiniões.
· Uma primeira situação é referente a um regime de opressão O
texto Bíblico nos fala de um grupo que estava submetido às corvéias,
a trabalhos pesados, á condições de vida mínimas possíveis. Deixa
transparecer muito claramente um sistema de exploração de um
grupo mais forte sobre outro mais fraco. Este grupo mais forte está
representado por Faraó, chefe político e ao mesmo tempo religioso,
ou melhor, “monarca absoluto do Egito”. Egito que é o palco, o
cenário, o ambiente onde se dão os fatos, segundo a narrativa de Ex
2, 11-22.
Houve um tempo em que os faraós dominavam tranqüilamente suas
terras e se impunham fortemente sobre outros povos. A política
interna era pacífica e o Egito como grande potência (a Roma do início
do cristianismo e os Estados Unidos dos nossos tempos) tinha o
domínio da política externa. “Sob Ramsés II o Egito atingiu
estabilidade máxima nas políticas interna e externa”. Porém, chegou
um tempo em que tudo isto foi “caindo por terra”. O Egito aos poucos
foi perdendo a sua força e o império foi enfraquecendo, a começar
pela costa da Palestina e Síria, que estava sobre o domínio egípcio, e
aos poucos foi sendo tomada pelos povos marítimos (entre eles os
filisteus e os fenícios) que estavam munidos de uma força bélica
potente. Isto já sob o sucessor de Ramsés II , Merneptá (1234 –
1220). Isto entre outros fatores.
Diante deste quadro de enfraquecimento do poder externo do Faraó,
este tenta segurar-se internamente, e para isto impõe-se, sem medo
de utilizar-se da religião prepotentemente, usando da ideologia de
que se identifica com o divino, e ele é como que a ponte de salvação.
Usa deste artifício para se firmar internamente, fazendo com que
seus súditos o reconheçam como tal.
É neste contexto que entra a subjugação do povo. Com medo de
alguns grupos se unirem entre si e apoiarem os inimigos do rei do
Egito, este último impõe sobre os primeiros pesados
fardos,obrigando-os a trabalhar para alimentar seus luxos em troca
de recursos insuficientes para a própria sobrevivência. A opressão
surge como inibição de forças de quem questiona, de quem luta pela
justiça, de quem apela para mudanças estruturais coerentes. Assim
surgem as corvéias, impostas por uma ideologia de Estado, com o
intuito de enfraquecer as massas e solidificar o poder nas mãos de
quem já o tem, porém, que se vê ameaçado internamente pela
“derrota” que já sofreu externamente. É nesta situação de oprimidos e
explorados que se encontram os “irmãos de Moisés”, que chegam a
ser até mesmo espancados por feitores, e caso se mostrem
indiferentes ao poder divino do Faraó, podem ser até mortos.
· Uma segunda situação que destacamos é a organização da classe
oprimida Quando no texto observamos a censura de Moisés ao
hebreu que batia em outro hebreu, podemos deduzir daí, que a
preocupação era de que não se desintegrasse o grupo, mas que
continuassem a unir forças para que superassem juntos as
dificuldades e lutassem contra a opressão. Uma briga pode ser o
início de um rompimento e de uma desetruturalização interna de um
grupo. Provavelmente já havia ali entre os explorados uma certa
organização, no sentido de já terem um objetivo comum: a libertação
da opressão. Até porque “há no decorrer da história várias tentativas
de famílias e indivíduos de fugir para o exterior, para escapar ao
serviço de trabalho estatal”, o que seria impossível se não houvesse
toda uma estratégia previamente organizada.
Sabe-se que grupos eram explorados impiedosamente pela elite
egípcia e às vezes maltratados até a morte. Daí com certeza já
existirem pessoas não satisfeitas, que se preocupavam em fazer
laços, não de parentesco, mas de objetivo: objetivo de vencer o
sistema opressor: talvez pela revolta, talvez pela fuga. A narrativa
Bíblica nos aponta a segunda opção como acontecimento, porém, o
que nos interessa aqui é que esses grupos tinham uma certa
organização, e esta contribuiu para que chegassem a libertação.
Entenda-se organização no sentido “não formal” ( como a de um
sindicato, por exemplo, com uma estratégia sistematizada e
legalizada), mas de laços e objetivos comuns, que uniam os grupos
marginalizados (deviam pensar, mesmo que não muito abertamente,
em maneiras de vencer a opressão, em estratégia de fuga, etc.) ;
organização que podia ser ferida e desintegrada pelas desavenças
internas.
· Uma terceira situação apresentada no texto é com respeito ao
privilégio de classes Naturalmente, privilégio das classes
dominadoras e nunca das massas.
O Faraó tinha todas as regalias e autoridade, e conseqüentemente
todos os privilégios. Juntamente com ele, estavam aqueles que se
ligavam mais diretamente à administração, seja pela religião
(sacerdotes e suas respectivas castas) , ou por outros serviços em
nível elitista (funcionários da corte real, etc. , que se organizavam
hierarquicamente).
Não é à toa que o texto afirma que Moisés, após ter executado o
assassinato do egípcio e percebido que fora vã sua atitude de
esconde-lo, uma vez que aquele fato já era do conhecimento do
Faraó, fugiu. Moisés, segundo o que o texto deixa transparecer, sabia
que se permanecesse ali depois daquele assassinato, iria perecer,
porque não se mata um protegido do Faraó. Em outras palavras, não
se rebela contra um funcionário do rei, porque este ato implica em
rebelar-se contra o rei, e não pode ser perdoado o “traidor” nem que
pertença à casa do rei.
Os funcionários de Faraó sempre gozam de proteção. Daí o único
recurso para aquele que o ofendesse, mesmo que “com razão” , era
fugir, porque o castigo era certo.
· A quarta e última situação que elencamos é com relação à mistura
de raças Fica evidente no texto, a facilidade de se criar novos
laços familiares entre pessoas de raças diferentes, de povos
diferentes, com costumes diferentes, em uma palavra, uniões entre
estrangeiros. Moisés é identificado como o “egípcio”, e pelo fato de
ter salvo sete mulheres das mãos daqueles que lhes queriam fazer
mal, é acolhido na casa do pai das mulheres e recebe como prêmio
uma das sete midianitas e une-se a ela em casamento. Deduz-se daí,
também que, possivelmente era comum haver uniões de pessoas,
independentemente do parentesco. Por isso, podemos, de certa
forma, afirmar que o povo subjugado não era um grupo homogêneo,
formado de pessoas de uma mesma raça, preconceituoso que não
aceitava se misturar (seja por questões religiosas ou de
consangüinidade), mas vários grupos que em um determinado
momento uniram-se num único e mesmo objetivo, ansiando pela
libertação e formaram um grande grupo.
O povo de Israel, que depois iria formar-se, não o seria
necessariamente por questão de raça, mas de adesão à uma causa
comum, que depois de uma forte experiência religiosa passaram a
adorar um Deus comum. Por isso, podemos ser ousados talvez, mas
vale a pena arriscar, em dizer que os “irmãos de Moisés” não era
uma família consangüínea, mas um grupo sob o mesmo fardo.
O nosso texto (Ex 2, 11-22) tem a intenção de criticar as estruturas de morte.
Ele condena a violência, a guerra, a exploração, enfim, condena tudo o que surge
contrário á dignidade humana. É um texto semelhante á diversos textos proféticos,
principalmente no que respeita a perspectiva com a qual é escrito. A intenção não é
dar razão aos que detêm o poder, mas libertar-se de suas ideologias que são
impostas, e viver uma paz concreta. Um texto onde é valorizado o ambiente rural,
visto que, é neste ambiente que se dão as consolações depois das crises (basta
lembrar que foi lá que Moisés encontrou refúgio e construiu sua família).
Podemos, sem dúvida afirmar com Milton Schwantes que “o nascedouro das
tradições e dos conteúdos, contidos em Ex 1 – 15 (onde se situa nosso texto) não
está, em todo caso, nos palácios nem nos templos. Estes textos nasceram na
‘manjedoura’. Provêm da vida do povo. O campesinato é o âmbito dos textos. Ora os
lavradores e as lavradoras são diretamente responsáveis pela formulação dos
conteúdos; ora setores sociais vinculados aos camponeses, como levitas e profetas,
o são.
BORN, Dr. A. Van Den; Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Vozes, 5a edição,
Petrópolis,1992, 1588 pp.
MACKENZIE, John L. ; Dicionário Bíblico, Paulinas, 3a edição, São Paulo,1984,
979 pp.
ZENGER, Erich; O Deus da Bíblia: estudo sobre os inícios da fé em Deus no Antigo
Testamento, Paulinas, São Paulo, 1989, 143 pp.
PIXLEY, George V. ; Êxodo, Paulinas, São Paulo,1987, 247 pp.
SCHWANTES, Milton; A Origem Social dos Textos; in Estudos Bíblicos 16, Vozes,
Petrópolis, 1988.
PE.Ademir Nunes Farias

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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