segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Maria, Mãe animada pelo Espírito Santo


1. Como coroamento da reflexão sobre o Espírito Santo, neste ano a Ele dedicado no caminho rumo ao grande Jubileu, elevamos o olhar para Maria. O consentimento por ela expresso na Anunciação, há dois mil anos, representa o ponto de partida da nova história da humanidade. Com efeito, o Filho de Deus encarnou e começou a habitar no meio de nós, quando Maria declarou ao anjo: «Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38).

A cooperação de Maria com o Espírito Santo, manifestada na Anunciação e na Visitação, exprime-se numa atitude de constante docilidade às inspirações do Paráclito. Consciente do mistério do seu Filho divino, Maria deixava-se guiar pelo Espírito para se comportar de modo adequado à sua missão materna. Como verdadeira mulher de oração, a Virgem pedia ao Espírito Santo que completasse a obra iniciada na concepção, para que o Menino crescesse «em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens» (ibid., 2, 52), Sob este aspecto, Maria apresenta-se como um modelo para os pais, mostrando a necessidade de recorrer ao Espírito Santo para encontrar a via justa na difícil tarefa educativa.

2. O episódio da apresentação de Jesus no templo coincide com uma intervenção importante do Espírito Santo. Maria e José tinham ido ao templo para «apresentar» (cf. ibid., 2, 22), isto é, para oferecer Jesus, segundo a lei mosaica que prescrevia o resgate dos primogénitos e a purificação da mãe. Vivendo profundamente o sentido deste rito, como expressão de sincera oferta, eles foram iluminados pelas palavras de Simeão, pronunciadas sob o impulso especial do Espírito.

A narração de Lucas sublinha de maneira expressa a influência do Espírito Santo na vida deste ancião. Ele recebera do Espírito a garantia de não morrer sem ter visto o Messias. E precisamente, «impelido pelo Espírito, veio ao templo» (ibid., 2, 27), no momento em que Maria e José levavam para lá o Menino. É, pois, o Espírito Santo que suscita o encontro. É Ele que inspira ao velho Simeão um cântico que celebra o futuro do Menino, que veio como «luz para iluminar as nações» e «glória para o povo de Israel» (ibid., 2, 32). Maria e José maravilham-se destas palavras que ampliam a missão de Jesus a todos os povos.

É ainda o Espírito que faz com que Simeão pronuncie uma profecia dolorosa: Jesus será «sinal de contradição» e «uma espada trespassará a alma» de Maria (ibid., 2, 34.35). Através destas palavras, o Espírito Santo prepara Maria para a grande provação que a espera, e confere ao rito da apresentação do Menino o valor de um sacrifício oferecido por amor. Quando Maria recebeu o seu Filho dos braços de Simeão, compreendeu que O recebia para O oferecer. A sua maternidade envolvê-la-ia no destino de Jesus e toda a oposição a Ele haveria de se repercutir no seu coração.

3. A presença de Maria junto da Cruz é o sinal de que a Mãe seguiu até ao fim o itinerário doloroso, traçado pelo Espírito Santo pela boca de Simeão.

No Calvário, das palavras que Jesus dirige à Mãe e ao discípulo predilecto, emerge outra característica da acção do Espírito Santo: Ele assegura fecundidade ao sacrifício. As palavras de Jesus manifestam precisamente um aspecto «mariano» desta fecundidade: «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19, 26). Nestas palavras, o Espírito Santo não aparece expressamente. Mas a partir do momento que o evento da Cruz, como a inteira vida de Cristo, se desenrola no Espírito Santo (cf. Dominum et vivificantem, 40-41), precisamente no Espírito Santo o Salvador pede à Mãe que consinta ao sacrifício do Filho, para se tornar a mãe de uma multidão de filhos. A esta suprema oferta da Mãe de Jesus, Ele assegura um fruto imenso: uma nova maternidade destinada a estender-se a todos os homens.

Da Cruz o Salvador queria derramar sobre a humanidade rios de água viva (cf. ibid., 7, 38), isto é, a abundância do Espírito Santo. Mas desejava que esta efusão de graça estivesse ligada ao rosto de uma mãe, a sua Mãe. Maria aparece já como a nova Eva, mãe dos vivos, ou a Filha de Sião, mãe dos povos. O dom da Mãe universal estava incluído na missão redentora do Messias: «Depois, Jesus, sabendo que tudo estava consumado...», escreve o Evangelista após a dupla declaração: «Mulher, eis aí o teu filho» e «Eis aí a tua mãe» (ibid., 19, 26-28).

Desta cena pode-se intuir a harmonia do plano divino em relação ao papel de Maria na acção salvífica do Espírito Santo. No mistério da Encarnação a sua cooperação com o Espírito tinha desempenhado um papel essencial; também no mistério do nascimento e da formação dos filhos de Deus o concurso materno de Maria acompanha a actividade do Espírito Santo.

4. À luz da declaração de Cristo no Calvário, a presença de Maria na comunidade à espera do Pentecostes assume todo o seu valor. São Lucas, que chamara a atenção para o papel de Maria na origem de Jesus, quis ressaltar a sua presença significativa na origem da Igreja. A comunidade é composta não só de Apóstolos e Discípulos, mas também de mulheres, entre as quais Lucas nomeia unicamente «Maria, a mãe de Jesus» (Act 1, 14).

A Bíblia não nos oferece outra informação sobre Maria após o drama do Calvário. Mas é muito importante saber que Ela participava na vida da primeira comunidade e na sua oração assídua e unânime. Sem dúvida, ela esteve presente na efusão do Espírito, no dia do Pentecostes. O Espírito que já habitava em Maria, tendo realizado nela maravilhas de graça, agora desce de novo ao seu coração, comunicando dons e carismas necessários para o exercício da sua maternidade espiritual.

5. Maria continua a exercer na Igreja a maternidade que lhe foi confiada por Cristo. Nesta missão materna, a humilde escrava do Senhor não se põe em concorrência com o papel do Espírito Santo; ao contrário, ela é chamada pelo mesmo Espírito a cooperar com Ele de modo materno. Ele desperta continuamente na memória da Igreja as palavras de Jesus ao discípulo predilecto: «Eis aí a tua mãe», e convida os crentes a amarem Maria como Cristo a amou. Todo o aprofundamento do vínculo com Maria permite ao Espírito uma acção mais fecunda para a vida da Igreja.

JOÃO PAULO II

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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