sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Convidado a ser feliz

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Dom Orani João Tempesta 
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Neste final de semana estamos participando com grande entusiasmo de nossa romaria anual ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, para agradecermos os muitos benefícios que a Divina Providência tem concedido à nossa Arquidiocese. No ano passado fomos à “casa da mãe” pedir a intercessão pela Jornada Mundial da Juventude. Neste ano estamos agradecendo pela realização, e pedindo pelos frutos que virão com o desabrochar das sementes plantadas no “campo da fé” dos corações e que a “chuva criadeira” está fazendo acontecer. Temos muito a agradecer e a pedir, pois ainda um longo caminho nos resta para concluirmos a JMJ Rio 2013.

Neste domingo, 22º do Tempo Comum, a Igreja nos convida a refletir acerca do Banquete do Reino.
Num mundo em que a ambição, a luta pelo poder, pelo reconhecimento público e pela efemeridade da fama midiática se impõe, infelizmente, pela superioridade, relembremos quem são os convidados para participar do Reino de Deus.
A condição fundamental para tomar parte do banquete do Reino de Deus é a Humildade. Cultivar a humildade nos coloca em profunda intimidade com Jesus. O mundo, hoje, é de profunda competição.
O Evangelho deste domingo deixa claro acerca da primazia dominante dos primeiros lugares. Diz o Evangelista que: "Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então, contou-lhes uma parábola: 'Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: 'Dá o lugar a ele'. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: 'Amigo, vem mais para cima'. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado".
Na nossa sociedade, agressiva e competitiva, o valor da pessoa se mede pela sua capacidade de se impor, de ter êxito, de triunfar, de ser o melhor, o maior. Quem não dá lucro não tem valor para a sociedade descartável em que vivemos, em que o prazer sobrepõe ao eterno. Vale a pena gastar a vida assim? Estes podem ser os objetivos supremos que dão sentido verdadeiro à vida do homem?
Todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado (Lc 14, 11). Esta parábola, num significado mais profundo, faz pensar também na posição do homem em relação a Deus. O último lugar pode representar, de fato, a condição da humanidade degradada pelo pecado, condição da qual só a encarnação do Filho Unigênito a pode elevar. Por isso, o próprio Cristo ocupou o lugar dos malfeitores — a cruz — e, precisamente com esta humildade radical, nos redimiu e nos ajuda sem cessar.
O Papa Francisco, ao insistir que devemos pregar o Evangelho e levar a Boa Notícia de Jesus às periferias, atualiza o Evangelho deste domingo, quando ele nos ensina que os convidados para o Banquete do Reino devem ser os pobres, os necessitados, os famintos, os excluídos, os desabrigados, os que não têm habitação, aqueles que vivem à margem da sociedade e, sobretudo, os que necessitam ouvir a voz de Deus.
O Catecismo da Igreja Católica, que todos nós devemos ter sempre presente, principalmente neste Ano da Fé, relendo, estudando, ensinando aos outros, nos ensina que: "Bem-aventurados os pobres em espírito" (Mt 5,3). As bem-aventuranças revelam uma ordem de felicidade e de graça, de beleza e de paz. Jesus celebra a alegria dos pobres, a quem já pertence o Reino: O Verbo chama "pobreza em espírito" à humildade voluntária de um espírito humano e sua renúncia; o Apóstolo nos dá como exemplo a pobreza de Deus, quando diz: "Ele se fez pobre por nós" (2 Cor 8,9)"(cf. CIC 2546).
A segunda parte do Evangelho nos convida à gratuidade: aqueles que fazem a experiência de Deus em suas vidas também agirão na gratuidade com os irmãos e irmãs. Fará o bem às pessoas como consequência de sua própria vida com Deus. Já recebemos a graça de Deus e, por isso, com generosidade vamos ao encontro do outro com alegria e disponibilidade. Aliás, essa tem sido a experiência dos cristãos através dos tempos. Tantos trabalhos missionários, participações, obras sociais, artísticas e culturais que até hoje marcam a Igreja demonstram isso. Quem se encontrou com Cristo passa a anunciá-Lo com entusiasmo.
Isso aparece com muita clareza nestes tempos de tantos interesses, egocentrismo, materialismo. A generosidade é consequência de uma vida com experiência com Deus. Vemos isto com tantas pessoas que, pessoalmente, ou em nome de sua instituição, abrem seus corações para se comprometer com a causa do Reino de Deus. Isso os faz “nadar contra a corrente” deste mundo, que só pensa em acúmulos e interesses, para viverem a liberdade dos filhos de Deus!
Rezemos para que o Senhor nos conceda o dom de responder com alegria ao seu convite e sempre nos colocarmos no último lugar e partilharmos, com generosidade, o que for possível. Que um dia possamos também escutar: “tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”, porque “tu serás feliz”.
Portanto, neste domingo somos convidados a olhar para Cristo como modelo de humildade e de gratuidade: do Cristo Redentor aprendemos a paciência nas tentações, a mansidão nas ofensas, a obediência a Deus nos padecimentos, na expectativa de que Aquele que nos enviou nos diga: sobe mais para cima (Lc 14, 10); de fato, o verdadeiro bem é estar próximo d'Ele.

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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