sábado, 4 de janeiro de 2014

O limiar de um novo tempo

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Dom Jaime Spengler
Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre (RS)

Neste período de Natal somos convidados a contemplar o ser humano com olhos distintos. De fato, o próprio Deus se faz carne humana, se deixa envolver pelos panos da fragilidade humana. 

No meio da noite, na obscuridade iluminada somente por uma estrela, o Senhor entra no espaço e no tempo, na história. Ele se faz visível num rosto frágil de criança! Era uma noite de inverno; fazia frio! Os pais não encontraram acolhida, onde pudessem obter o necessário para com segurança e conforto realizar o parto. As legendas falam de uma estrebaria, de um cocho de animais, onde boi e burro oferecem o calor necessário para a ‘Luz que brilhava na noite’!
O Natal desperta em nós o desejo de paz, de proteção e amor! Isto porque as celebrações natalinas nos levam para um tempo no qual também nós experimentamos a necessidade de paz, proteção e amor. Isto diz de um desejo de viver como criança; diz da restituição da oportunidade de ainda uma vez, a cada ano, nos ‘tornarmos como crianças’. Pois, em cada coração humano está latente o desejo de viver como criança, pois a cada criança se quer bem, pelo simples fato de ser criança! A natureza proveu o ser humano com a linguagem da ‘criaturalidade’ que, bem entendida, nos leva necessariamente à bondade.
As celebrações do Ano Novo se encontram no contexto natalino. Por isso, continuamos desejando a quem vamos encontrando votos de uma bom, feliz, abençoado Ano Novo.
A bondade que se manifesta neste período do ano, diz da possibilidade sempre latente de compreender mesmo o que, por vezes, aparece como incompreensível; diz que a fragilidade e a contingencia não podem ser desprezadas ou renegadas; diz que a delicadeza e a ternura do evento são expressão de possibilidades novas; diz que toda expressão de vida é destinada a ser boa e não para ser relegada ou destruída; diz que somos e podemos ser seres humanos, mesmo quando a animalidade parece querer se sobrepor; diz que Deus assume o incompleto, o não inteiramente formado, o não ainda adulto; diz para olharmos o futuro com boas expectativas, alegria e esperança!
Sobre cada ser humano, sobre a existência de cada pessoa brilha uma estrela. Cada ser humano é convidado a dar ouvidos aos Anjos, a ver o mundo com olhos de ‘anjos’! Os céticos certamente argumentariam dizendo que o ser humano não pode dar atenção a ‘anjos’, pois a vida é vã! E eles têm, de certo modo, razão, não fosse o fato de verem as coisas somente à luz do dia, orientados por um racionalismo exacerbado. Sabemos existirem dimensões da existência humana, que somente vemos com ‘os olhos do coração’, marcado pelo ardente desejo de sondar a terra e o céu!
Celebramos o Natal e a entrada do novo ano com alegria. E a alegria é coisa do coração! Já o senso comum, marcado pelo espírito da técnica se preocupa com a necessidade de nessa época do ano multiplicar oportunidades de prazeres... Ora, o prazer é coisa dos sentidos, marcado pela efemeridade, pelo passageiro.
Oxalá possa o ano de 2014 ser marcado pela alegria. Alegria esta capaz de sustentar as diversas situações que se imporão no ano vindouro. Alegria que nos dispõe a trabalhar em prol da fraternidade humana. Sabemos que a disposição alegre de trabalhar em prol da fraternidade, haverá de favorecer a construção de uma sociedade caracterizada pela paz. Paz desejada, almejada, querida por todos os homens e mulheres de boa vontade.

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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