sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O fim dos tempos

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Dom Demétrio Valentini
Bispo de Jales (SP)
O assunto pode parecer sem sentido. Ou inadequado.  Ou ao menos inoportuno.  Mas não faz mal colocar algumas ponderações, que encontram fácil justificativa no contexto de mais um dia de finados, seguido do dia de todos os santos. 

Com estas duas celebrações, a intenção da liturgia é franca e sem rodeios. Ela nos convida a pensar no final da vida, e no destino que nos aguarda após a morte. E de uma maneira mais ampla, no presumível “fim do mundo” , que a finitude da natureza nos garante como certo!
Dependendo de circunstâncias aleatórias, com frequência volta às manchetes a previsão de que o fim do mundo está próximo, às vezes até com data marcada.
Se olhamos com atenção o depoimento dos Evangelhos, percebemos que no tempo de Cristo havia um forte movimento escatológico. Ele se conectava facilmente com as grandes expectativas do povo de Isael, forjadas todas elas na esperança de uma manifestação divina em seu favor.

Podemos perceber a presença desta visão escatológica, na breve síntese da pregação inicial de Jesus, que Marcos nos apresenta: “Completou-se o tempo, o Reino de Deus está próximo, convertei-vos, e crede no Evangelho.”
Assim fazendo, Cristo valorizava as expectativas do movimento escatológico, canalizando-as para a mensagem que ele tinha a transmitir. Como precisava alertar a todos para que se dessem conta do que estava por acontecer, ele aproveitava o clima de expectativa escatológica, que servia para alertar o povo.
Enquanto o povo era motivado pelos presságios de grandes acontecimentos, Jesus aproveitava para confirmar que, de fato, estavam próximos eventos importantes, onde ele mesmo seria o protagonista principal, no contexto do “mistério pascal”, que incluía sua paixão, morte e ressurreição.
Com esta finalidade Jesus assimilava o linguajar escatológico dos profetas, valendo-se dele para armar o cenário em que ele iria cumprir a missão recebida de Deus. Ao mesmo tempo que utilizava o gênero literário apocalíptico, Jesus se empenhava em explicar que as expectativas dele eram bem diferentes das expectativas do movimento escatológico. Estas facilmente estreitavam as esperanças do povo dentro da visão acanhada de derrotas a infligir a vizinhos e inimigos.
Algumas passagens do Evangelho trazem com tanta ênfase as expectativas escatológicas de Jesus, que pareceria ter-se equivocado. Pois ele chegou a afirmar: “esta geração não passará, até que tudo isto tenha se cumprido” (Mc 13,30). Sua vontade de cumprir por inteiro sua missão, o levava a diluir as fronteiras entre o presente e o futuro.
Do ponto de vista da fé cristã, podemos olhar o futuro de nossa vida e do próprio mundo com serenidade. Pois o grande evento se realizou, na pessoa de Cristo que, “uma vez por todas”, ofereceu sua vida “em resgate pela multidão”.  Este é o grande fato, que Jesus predizia, e que a Igreja vive nas três dimensões do tempo: o passado, que é recuperado pela memória e se torna presente pela celebração, que por sua vez aponta o futuro, antecipando sua plenitude que um dia se manifestará.
Como Cristo, nós também vivemos as três dimensões do tempo, até o dia em que se tornará eternidade.

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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