segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Exigências da Ética



Dom Murilo S. R. KriegerArcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

Em reação a periódicas notícias de escândalos, especialmente no campo político, crescem manifestações que procuram manter vivas as exigências da ética. A atual “Coalização pela Reforma Política-Partidária e Eleições Limpas”, com seu projeto de lei de iniciativa popular, é uma prova disso. O Evangelho ilumina esse esforço por um país ético, ao lembrar que há necessidade de critérios para que a vida humana seja bem conduzida. Se cada pessoa decidir guiar-se por suas próprias opiniões, na base do “Eu acho que”, a convivência nesta terra dos homens se tornará insuportável.

A mensagem cristã ilumina os comportamentos do ser humano, para que eles sejam éticos. Ela ensina, por exemplo, que o agir de cada pessoa ou grupo deve ser guiado pelo espírito de solidariedade, pois há um vínculo que une as pessoas entre si. Os problemas de cada um devem ser problemas de todos, na linha do que o apóstolo Paulo ensinava aos romanos: “Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram” (Rm 12,15).
Outro critério ético extraído do Evangelho é a necessidade de se andar ao lado da verdade (“A verdade vos libertará”: Jesus Cristo) e a de buscá-la incessantemente. É bom o que é verdadeiro, e não simplesmente o de que cada um gosta. A liberdade de cada um está subordinada à verdade.
Um terceiro critério, que não pode ser esquecido: a abertura ao transcendente. A história do ser humano é marcada pela busca de Deus. Essa busca é comum a todas as pessoas, pertencentes a qualquer cultura. Somos, por natureza, seres religiosos. O desejo de Deus está escrito no coração humano desde o momento de sua criação. Criados por Deus, e feitos para Ele, não encontraremos a verdade e a felicidade senão nele. Podemos até nos esquecer dele; Ele, contudo, jamais se esquece de seus filhos e filhas. 
Um comportamento ético supõe: (1) um grande respeito por tudo aquilo que é público, superando-se a triste mentalidade e equivocada crença de que, se um bem é público, não é de ninguém, sendo permitido ao mais esperto tirar proveito dele em benefício próprio; (2) uma nova maneira de encarar a política, que deve ser a procura do bem da comunidade, e não de si próprio; (3) a busca da transparência e honestidade nos negócios, em oposição à generalizada mentalidade de que “É preciso levar vantagem em tudo”; (4) a subordinação da economia à ética – isto é, nem tudo o que dá maior lucro é melhor; melhor é o que favorece o crescimento da pessoa, e de todas as pessoas; (5) os limites que devem ser impostos aos meios de comunicação social, especialmente a TV. Isso pode ser dito de forma mais simples: nem todo programa é conveniente; não é porque um programa dá “ibope” que é válido, pois não se podem ignorar os valores da família, da criança, de cada pessoa (“Limite não é censura; bom senso não é burrice; e respeito não é repressão” – F. Verucci); (6) a consciência de que o exercício de qualquer profissão deve submeter-se a normas éticas, que têm como base a responsabilidade de todos e de cada um na busca do bem da coletividade.
Quando o ser humano não aceita princípios éticos acaba se tornando o lobo do próprio homem. E se o homem-lobo domina, nascem as guerras entre países, os desentendimentos dentro de um mesmo país e no interior de cada lar; crescem os muros que separam  as pessoas e surge um número crescente de grades de proteção. Onde cada qual faz o que gosta e o que quer, não é de se admirar que falte a paz e que se multipliquem as injustiças e as desigualdades.
Não será a hora de voltarmos nossa atenção para os dez Mandamentos? Eles não são uma simples lista de obrigações e proibições: são setas que nos indicam que caminhos são mais adequados para a boa convivência dos homens e mulheres com Deus e de cada um  com seus semelhantes.
Dito isso, compreende-se que há uma critério ético que é o fundamento de todo e qualquer comportamento – critério que foi assim expresso por Jesus Cristo: “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles” (Mt 7,12).

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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