sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O reino, realidade humana

Dom José Alberto Moura

Dom José Alberto Moura, CSS
Arcebispo de Montes Claros (MG)

Não falemos de reino para indicar sistema de governo, mas da realidade humana onde desejamos a realização da justiça para todos. Aí reina tudo o que queremos de bom para cada ser humano. Parece utopia, mas é possível termos uma convivência mais fraterna e realizadora para cada um. Basta nos atermos à formação de cada pessoa para cooperar com uma vida solidária e verdadeiramente altruísta.

O profeta Ezequiel usa da comparação do pastoreio de Deus em relação a seu povo, no meio de líderes que só pensavam em si e se aproveitavam das ovelhas para usá-las para o próprio bem e desproveito delas (Ezequiel 34, 11-17).
Vivemos num contexto de egoísmo, concentração de renda exagerada, tributação grande para as classes trabalhadoras e não para os de grande capital, fome em muitas partes da terra, desagregação de famílias, exacerbação do sexo, difusão das drogas, consumismo, uso de grande parte da mídia por parte do poder econômico com a prática do condicionamento da população para seus interesses materialistas e consumistas. Nessa realidade, é possível reinar a tão desejada civilização do amor, em que a ética, a solidariedade, o amor, a justiça, a valorização da família, a inclusão social e a boa política possam acontecer?
Falamos do Reino de Deus com sua justiça como ideal de vida para todos na terra. Seria possível tornar-se realidade? No Evangelho Jesus fala do julgamento de Deus, que fará separar as ovelhas dos cabritos, ou seja, dos bons e maus (Cf. Mateus 25,31-46). O bem e o mal sempre vão existir, enquanto houver a liberdade humana e pouca formação para os valores humanos, cristãos e religiosos em geral. Muitos julgam que o mal moral é o bem, confundindo satisfação momentânea como finalidade de vida. É possível aumentar progressivamente o número dos que aderem à boa formação do caráter e aos valores que dignificam e trazem a base para a verdadeira realização humana.
Jesus lembra que a pessoa só se realiza quando dá de si pelo bem do semelhante, superando a busca desenfreada dos falsos deuses. Eles iludem pessoas para a conquista ilimitada de bem estar fundamentado no puro consumismo.
Não é puro sonho constituírem-se famílias de qualidade humana em que se prepara o casamento. Os enamorados então procuram conhecer as idéias, as personalidades, os ideais e chegam à conclusão de uma possível vida em comum para a busca de um ideal elevado, encontrado no mútuo apoio e no amor de total doação de um ao outro.
Na área política é possível melhorá-la com a consciência dos cidadãos para apresentarem e escolherem candidatos com altivez moral e de caráter, que realmente assumem a política como missão de serviço ao bem comum.
Não está fora da promoção da cidadania, ajudando a implantação do reino do amor, a criação de fóruns de debate com lideranças. Acontece aí a valorização das prioridades das comunidades e se dialoga com os que detêm os poderes, inclusive o judiciário, para a melhor promoção da justiça social, que contemple principalmente o bem dos excluídos socialmente.
As religiões, num entrosamento de boa vontade e diálogo, poderiam, por suas lideranças, verem formas de contribuírem com o bem moral e social do povo.
O Reino pode acontecer com benefício para todos, quando houver mais respeito à vida e à dignidade humana, com a promoção dos valores fundamentais de todos respeitados

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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