sábado, 13 de novembro de 2010

O Cristianismo e a história das Religiões

 - Parte 2 
2.2. A fidelidade dos escritos do Novo Testamento
1. A argumentação aduzida por Kryvelev para tentar provar que Jesus Cristo não existiu, está ultrapassada; a escola das religiões comparadas fez sua voga há quase cem anos; hoje está em descrédito. O livro de Kryvelev ignora os mais recentes avanços da crítica dos Evangelhos; é o que lhe tira qualquer verniz de autoridade aos olhos dos estudiosos, embora possa iludir um ou outro leitor incauto.
A crítica atual, por mais ferrenha que seja, não recusa a historicidade de Jesus Cristo. As novas correntes críticas se aplicam a questões de hermenêutica, discutindo o sentido da linguagem dos evangelistas; esta não teria expressado valores sobrenaturais e transcendentes, como julgaram vinte séculos de Cristianismo, mas teria apresentado um Jesus ornamentado de ficções, a respeito do qual o homem moderno nada poderia dizer. Não há dúvida, a crítica contemporânea nem sempre é objetiva, mas parte de preconceitos racionalistas dogmaticamente estabelecidos sem discussão prévia.

2. As teorias que negam a historicidade de Jesus, puderam ter alguma voga enquanto era viável admitir a redação dos Evangelhos em meados do século II, como faz Kryvelev. Atualmente, porém, isto já não é possível. A crítica admite, com certa unanimidade, o surto do texto dos Evangelhos canônicos no século I. Entre outras razões para tanto, estão os progressos dos estudos paleográficos: novos e novos manuscritos descobertos nos últimos decênios levaram a recuar as datas de composição dos Evangelhos. Com efeito, entre outros dados, note-se que no Egito foi descoberto em 1935 o papiro neotestamentário mais antigo, de nº 457, que apresenta o texto de Jo 18,31-33.37s e que deve datar do início do século II. Acha-se guardado em Manchester, na John Rylands Library. Isto mostra que já no início do século II o texto do Evangelho de João havia passado da Ásia Menor (onde teve origem) para o Egito - o que leva a admitir a redação do IV Evangelho em fins do século I ou por volta do ano 100. Ora inegavelmente o Evangelho segundo S. João é posterior aos sinóticos; donde se deduz que a origem dos sinóticos deve datar da segunda metade do século II, como geralmente admitem os críticos contemporâneos. Segundo Josef Scharbert, que representa o pensamento comum dos estudiosos no caso, o Evangelho segundo Marcos foi escrito entre 66 e 70, ou seja, antes da queda de Jerusalém; o Evangelho de Lucas é do ano de 75 aproximadamente; o de Mateus terá sido escrito primeiramente em aramaico por volta do ano de 60, ao passo que a forma grega do mesmo (a única existente e canônica) teve origem depois de 70; o de João é datado de 100 aproximadamente. Cf. J. Scharbert, Introdução à Sagrada Escritura. Petrópolis, 1980, pp. 69.72. 83s.
Quanto ao Apocalipse, está longe de ser o livro mais antigo do Novo Testamento, ao contrário do que afirma Kryvelev. Supõe uma Cristologia assaz elaborada, que revê os acontecimentos da vida terrestre de Jesus em perspectiva pascal (cf. 2,1.8.12.18; 3,1.7.14; 5,5); alude a acontecimentos da história da segunda metade do século I (cf. Ap 13,18), supondo já desencadeada a perseguição de Nero aos cristãos (iniciada em 64).
2.3. Critérios de autenticidade dos Evangelhos
Existem em nossos dias estudos que estabelecem critérios para se definir a autenticidade das secções dos Evangelhos, ou seja, a criteriologia dos Evangelhos. Os autores católicos não fogem ao exame crítico do texto. Um dos estudos mais significativos a propósito é o de F. Lambiasi, cuja obra Autenticidade de histórica dos Evangelhos. Estudos de Criteriologia merece toda a atenção. Sumariamente, o autor propõe como critérios da genuinidade das seções do Evangelho os seguintes:
a) O testemunho múltiplo: "Pode ser julgado autêntico um dado evangélico solidamente atestado em todas as fontes dos Evangelhos (ou na maioria destas)... e nos outros escritos neotestamentários" (p. 143). Com efeito, um dado atestado concordemente por testemunhas independentes é presumivelmente autêntico. A esta conclusão levam tanto a psicologia experimental quanto a filosofia. Na verdade, a psicologia experimental ensina que duas ou mais pessoas independentemente uma da outra não inventam o mesmo fato ou não o falsificam da mesma forma; com outras palavras: diversos observadores independentes não podem errar da mesma maneira, suposto que sejam verdadeiramente independentes. A filosofia, por seu lado, assevera que o acordo de testemunhos verdadeiramente independentes, sobretudo se provêm de pessoas ou ambientes com pontos de vista e interesses diferentes ou até mesmo contrastantes, exige a realidade do fato como explicação adequada, se não se quer recorrer ao acaso.
b) O critério da descontinuidade: "Podemos considerar autêntico um dado evangélico (sobretudo em se tratando de palavras e de atitudes de Jesus) irredutível, quer às concepções do judaísmo, quer às concepções da Igreja primitiva" (p. 156).
Os polos de descontinuidade são dois, como se vê: o judaísmo e a Igreja primitiva.
A irredutibilidade ou a novidade de tal ou tal dado evangélico em relação ao judaísmo significa intervenção de fonte heterogênea ou, no caso, ação de um mensageiro insólito.
Entre os episódios de ruptura com o judaísmo, mencionam-se: as palavras "Eu, porém, vos digo..." com que Jesus se opõe à Lei de Moisés (cf. Mt 5,21-44), todo o sermão da montanha (Mt 5-7), o designativo Abbá que nenhum judeu aplicaria a Deus e que Jesus refere ao seu Pai (cf. Mc 14,36)¹, o ideal messiânico.
A irredutibilidade em relação à Igreja primitiva se verifica quanto nos Evangelhos ocorrem afirmações ou expressões que por sua índole contrariam as expectativas religiosas naturais ou espontâneas de uma comunidade. Assim, por exemplo, o episódio da Paixão e Morte de Jesus na cruz, os ditos que pareciam minimizar Jesus (Mc 10,18; Mt 12,31. Mc 3,21...), o aparente insucesso da pregação de Jesus, as tentações de Jesus (Mt 4,1-11; Lc 4,1-13)...
c) O critério da continuidade externa e interna). Por continuidade externa entende-se aqui a conformidade dos Evangelho com os dados históricos, geográficos, sociais, políticos da Palestina e do Império Romano no século I antes e depois de Cristo. Ora não há dúvida de que os relatos evangélicos se situam no contexto histórico-geográfico-político e cultural da Palestina que outras fontes documentam: aludem a personagens conhecidos, como Herodes, Quirino, Antipas, Caifás, Pilatos... As escavações arqueológicas na Terra Santa confirmaram as notícias evangélicas concernentes a Nazaré, Cafarnaum, Cesaréia marítima, Cesaréia de Filipe... Os escritos de Qumran (não bíblicos) confirmaram a existência de divisões entre fariseus e saduceus, controvérsias rabínicas, expectativas escatológicas e messiânicas...
Por continuidade interna entende-se a conformidade do texto dos Evangelhos com o núcleo já comprovado como autêntico pelo critério de descontinuidade. Assim as parábolas do Reino e a sua exortação à penitência ou à vigilância (cf. Mt 13), o sermão das bem-aventuradas (Lc 6,20-26), o Pai-Nosso (cf. Lc 11,2-4)...
Como se vê, a crítica contemporânea também considera o ambiente histórico e geográfico no qual apareceu o Cristianismo; mas isenta-se dos preconceitos de que estão imbuídos J. Kryvelev e sua escola; com muito mais precisão e akribía científicas examina seção por seção do Evangelho para averiguar a autenticidade de cada qual. Tal exame, muito mais sério do que o da escola das religiões comparadas, resulta em favor da genuinidade dos Evangelhos¹.
d) O estilo de Jesus (estilo lingüístico e estilo vital). Podem-se considerar as palavras de Jesus e reconhecer como autênticas quando nelas se encontram os traços característicos do ambiente lingüístico do tempo de Jesus; há, sem dúvida, no texto do Evangelho genuínas construções aramaicas ou aramaísmos (embora o texto original dos evangelistas seja grego), que devem ser reduzidas ao próprio linguajar de Jesus; são então ipsissima verba ou ipisissima vox Jesu (as mesmíssimas palavras ou o mesmíssimo estilo de Jesus). Tal é o caso de Mt 16, 13-20, onde se encontram as expressões "Simon Bar Jona", "a carne e o sangue", "o Pai... que está nos céus", "Tu és Pedro (Kepha)", "ligar-desligar"...
Quanto ao estilo dos milagres de Jesus, observam-se os seguintes componentes:
- benevolência de Jesus: realiza prodígios para curar e salvar, jamais para punir, como se depreende da recusa de fazer descer fogo do céu para aniquilar o povoado inóspito (Lc 9,51-56);
- simplicidade: nenhuma fórmula mágica, nenhum processo de hipnose ou de sugestão; basta uma palavra ou um simples gesto;
- instantaneidade da cura, na maioria dos casos;
- religiosidade do contexto: o milagre realiza-se numa atmosfera de oração e fé;
- discrição: Jesus recusa exibições clamorosas;
- universalidade: Jesus não faz seleção das doenças para reservar a si os casos mais fáceis e recusar os mais difíceis.
Estas características definem ainda mais nitidamente o estilo vital de Jesus se considerarmos os prodígios narrados por autores gregos antigos ou pela literatura cristã apócrifa; tais outros textos são contrastantes em relação ao estilo dos Evangelhos.
e) O critério da explicação necessária: O Pe. René Latourelle assim formula tal critério:
"Se, diante de um conjunto considerável de fatos ou de dados que exigem explicação coerente e suficiente, foi apresentada uma explicação que ilumine e agrupe harmoniosamente todos estes elementos (que, de outra forma, continuariam enigmas), podemos concluir que nos encontramos diante de um dado autêntico (fato, gesto, atitude, palavra de Jesus" (ver p. 238 do artigo citado na bibliografia à p. 39 deste fascículo).
Levem-se em conta, por exemplo, os seguintes fatos importantes e seguros, que exigem explicação adequada: a exaltação popular diante do fenômeno "Jesus", a consideração de Jesus como grande Profeta ou como "o" Profeta, a fé dos Apóstolos na messianidade de Jesus, a inveja dos sacerdotes e dos fariseus provocada pelo poder de Jesus, o recurso contínuo aos milagres na pregação primitiva, a coerência dos milagres com os outros "sinais" de Jesus, o relevo singular que toca às narrativas de milagres nos Evangelhos... Estes fatos só têm sua razão necessária e suficiente nos milagres de Jesus, que devem ter sido fatos históricos sem os quais não se explicariam suficientemente os dados reais acima recenseados.
Ainda outros critérios são apontados pelos estudiosos para se avaliar a autenticidade das perícopes do Evangelho: assim os critérios "da comunidade", os referentes à formação dos Evangelhos, a presença de particularidades "neutras" (isto é, que não supõem alguma tese teológica, como é o caso do travesseiro sobre o qual Jesus dorme na barca durante a tempestade; cf. Mc 4,38), o da vivacidade da narração, o da "existencialidade"...
Estas ponderações, que poderiam ser longamente ampliadas, sejam suficientes para evidenciar que os cristãos de nossos dias, ao acreditar em Jesus e nos Evangelhos, não são cegos nem anticientíficos. Muito ao contrário: anticientífico e obscurantista vem a ser qualquer autor que, obcecado por preconceitos racionalistas, pretenda destruir a historicidade de Jesus e a credibilidade dos Evangelhos na base de teorias longe ultrapassadas,... teorias que os críticos contemporâneos mais agudos não ousariam repetir!
Bibliografia:
CABA, J., De los Evangelios al Jesus historico. Madrid 1971.
CERRUTTI, P., O Cristianismo em sua origem histórica e divina. Rio de Janeiro 1963.
DE GRANDMAISON, L., Jésus-Christ. Sa personne, son message, son oeuvre. 2 vols. Paris 1931.
JEREMIAS, J., ll problema del Gesù storico. Brescia 1966.
LAMBIASI, F., Autenticidade histórica dos Evangelhos. Estudos de Criteriologia. São Paulo 1978.
LATOURELLE, R., Authenticité historique des miracles de Jésus. Essai de critériologie, em Gregorianumm 54 (1973), pp. 225-262.
IDEM, Critères d'authenticité historique des Evangiles, em Gregorianum 55 (1974) 609-538.
LEON-DUFOUR, X., Os Evangelhos e a história de Jesus. São Paulo 1971.
¹ Achamo-nos diante de algo novo e inaudito, que ultrapassa os limites do judaísmo. Aqui vemos quem era o Jesus histórico: o homem que fazia publicanos e pecadores participantes do Reino, autorizando-os a repetir esta última palavra: Abbá, caríssimo pai" (palavras do exegeta protestante Joachim Jeremias, A mensagem central do Novo Testamento. Ed. Paulinas, São Paulo 1977, p. 35).
¹ A propósito transcreveremos as observações de Lambiasi no seu estudo sobre "A autenticidade histórica dos Evangelhos":
  "Para não cairmos em asserções genéricas, retomemos o caso da expressão Reino de Deus. Esta expressão comprova, antes de mais nada, o argumento de continuidade; efetivamente, é empregada com formas literárias tipicamente judaicas: passivo divino (cf. Mc 4,11: "A vós foi dado o mistério do Reino de Deus"; cf. também Mc 9,47; Mt 6,33; 16,19; 21,43); paralelismo antiético (cf., por exemplo, Mt 5,19: "Aquele, portanto, que violar um só destes menores mandamentos e ensinar os homens a fazer o mesmo, será chamado o menor no Reino dos céus. Aquele, porém, que os praticar e os ensinar, esse será chamado grande no Reino dos céus"; cf. ainda Mc 4,11; Mt 11,11; 12,28; Lc 17,20-21).
  A expressão comprova também o critério de descontinuidade, seja do judaísmo, seja do cristianismo primitivo. A descontinuidade do judaísmo pode ser constatada já na esfera da ocorrência numérica: enquanto nos Evangelhos se encontra sessenta e três vezes (das quais somente duas em Jo), na literatura judaica (apócrifos e pseudo-epígrafos do Novo Testamento, Targum, Filon, Kaddish, José Flávio, Qumran...) a expressão é muito rara. Além disso, nos lábios de Jesus encontra-se com construções que não têm paralelo na linguagem contemporânea, harpazein, zetein, kleiein... (arrebatar, procurar, fechar...).
  A descontinuidade com a Igreja primitiva nota-se, quer no fato de a expressão tender a desaparecer no resto do Novo Testamento, quer no fato, acima mencionado, de que a Igreja primitiva alterou esses ditos, diminuindo-lhes o alcance escatológico e acentuando-lhes mais e mais o aspecto missionário: dia martyresthai tem basileian, diaggelein, euaggelizesthai... (testemunhar o Reino, anunciar, evangelizar...).
  Resumindo, podemos afirmar que é anunciado um conteúdo único e original, numa linguagem tipicamente judaica. Estas observações, ainda que parcas, e necessariamente esquemáticas a sustentar que "Reino de Deus" pertence ao núcleo mais antigo do ensinamento de Jesus" (p. 173s).

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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