quinta-feira, 24 de abril de 2014

Páscoa

Dom Jaime Spengler 
Arcebispo de Porto Alegre
A festa da Páscoa marca a história do Povo de Deus. Fala de uma história de libertação e de vida: os escravos são libertos e os mortos são resgatados!

Na noite da Páscoa a comunidade cristã se reúne ao redor do fogo para cantar a vitória da vida sobre a morte, da libertação sobre a escravidão. Ao redor do fogo a comunidade canta: “Eis a noite, em que tirastes do Egito os nossos pais, os filhos de Israel, a quem fizestes transpor o Mar Vermelho a pé enxuto... Eis a noite em que o Cristo, quebrando os vínculos da morte, sai vitorioso do sepulcro... Noite em que o céu se une à terra, e o homem com Deus se encontra”.
O hino descreve duas etapas importantes da história do Povo de Deus. A primeira diz respeito à libertação do povo, sob a orientação de Moisés, das amarras do Egito; a segunda celebra a vitória de Cristo das amarras de morte.
A vitória do Cristo sobre a morte é narrada pelos quatro evangelistas. Expressa a realidade inusitada vivida por aqueles homens e mulheres, discípulos da primeira hora. Trata-se de uma experiência realizada pelos discípulos de Jesus, marcada por desconcertos, interrogações, saudade e incertezas. Marcados pela dor da morte, eles choram a ‘separação’ do Mestre. Eles não conseguem esquecer sua pessoa, sua pregação, seus feitos. Ao mesmo tempo, em diferentes situações e movimentos, eles vão percebendo que algo novo está acontecendo, que a presença do Senhor se faz sentir e ver de outro modo, que Ele está vivo. Ele continua falando-lhes. Concedeu-lhes a possibilidade de vê-Lo e tocá-Lo. Ele caminha e faz refeição com eles. Tudo isso diz de uma experiência totalmente nova, que ultrapassava os horizontes habituais da experiência e, não obstante, para os discípulos era totalmente nova e incontestável.
Já o fato inesperado da crucificação e morte fora difícil de ser assimilado; fora necessário reler as Escrituras de modo novo. Agora também o fato do reencontro com o Mestre precisa ser visto a partir de uma nova leitura da Escritura. As poucas testemunhas escolhidas falam de um acontecimento tão distinto e real, tão poderoso ao manifestar-se a elas que toda a dúvida se desvanecia. E elas, com uma coragem absolutamente nova, não tem medo de se apresentar à sociedade e ao mundo para proclamar: Cristo verdadeiramente ressuscitou!
Nós, os discípulos de hoje, damos fé ao testemunho dos discípulos de ontem. Como eles, também nós, hoje, somos convidados a, na comunidade e em comunidade, ler e re-ler as Escrituras. Assim, recordando os feitos do Senhor, retornando sempre e de novo às Escrituras, celebrando a Sagrada Liturgia, procurando fazer nossos os sentimentos Dele, pode ser que sejamos também nós tocados pela graça do Encontro com o Ressuscitado e, assim, possamos ‘ver’ a união de céu e terra, o encontro do homem e Deus, pois a graça da Páscoa expulsa o crime e lava as culpas, devolve a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos, dissipa o ódio, prepara a concórdia, desarma os impérios.
Feliz e abençoada Páscoa a todos!

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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