quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Luta da Vida

Dom José Alberto Moura

Luta da Vida

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)

Todos, ao nascermos, temos vocação para a felicidade. Mas, humanos como somos, nossos desejos nem sempre acompanham nossa situação de vida. Nosso ideal vai até o infinito. Nosso corpo e nossa convivência com o semelhante e a natureza fazem-nos deparar com nossos limites. Quando paramos para refletir sobre tudo, mormente nos desafios existenciais - a falta de saúde, dos meios necessários para viver dignamente - ou, tendo-os, não nos contentamos só com o que é material e relativo. Então perguntamos: “A vida vale a pena? Somos capazes de transpor a barreira de nossos limites?”.

O santo homem Jó constatou bem a fragilidade humana: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra?... Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro e meus olhos não voltarão a ver a felicidade!” (Jó 7, 1.7). De fato, no pensamento linear da existência humana surgem tantos embaraços que nos fazem buscar o sentido da existência. Se nascemos para o ilimitado, como atingi-lo dentro dos limites da matéria, do tempo e do espaço? Não adianta buscar a felicidade colocando a finalidade da existência no que é passageiro. Não adiante construir mansões, acumular muito dinheiro, buscar todo tipo de comodidade e prazer, formar império político e social, com a megalomania. Isso tudo não satisfaz o desejo humano de realização plena. Por isso, o próprio Jó dá a tonalidade da existência, colocando toda sua fé e esperança em Deus (Cf. livro de Jó).
Não podemos fugir da luta da vida. É importante saber porque, como e para que lutar. Só pelo tesouro passageiro é pouco. Não nos contentamos com isso. O desejo de infinito nos faz buscar, com quem no-lo possa facilitar sua conquista, os meios e os métodos próprios para consegui-lo. O Filho de Deus nos apresenta o caminho. Ele mesmo é e se faz o caminho. Não há dúvida sobre o desafio. Seu itinerário é mais estreito e exigente. A ascese ou exercitação para trilhá-lo é fundamental. A pessoa que o segue deve colocar seu coração no tesouro a ser conquistado e não colocar a finalidade no que é transitório. Deve superar a vontade de se auto-afirmar no próprio orgulho e ambição. A alteridade é virtude fundamental para dar de si em bem do próximo, usando os dons recebidos para servir e não buscar ser servido. O que é material é bom, mas usado como instrumento de realização do bem à comunidade. Os prazeres são necessários, mas usados na medida da ética, da moral e do exercício da construção da convivência respeitosa com os valores inerentes à natureza posta pelo Criador. Os poderes são essenciais para se dar condição de promoção da vida e da dignidade humana. Devem ser usados para o serviço às pessoas, a partir da mais fragilizadas, e de toda a sociedade.
A luta da vida é meio importante de construção da cidadania pessoal e social. Ela leva sim, à conquista da felicidade plena, mas progressiva, se feita dentro dos parâmetros indicados pelo Criador e especificados pelo filho dele, vindo até nós de forma humana.
Não há decepção sufocante do ideal na vida humana. Aconteça o que for, prevalece a subida, dia-a-dia, do patamar da realização de cada um, quando a pessoa humana sabe do valor da luta para a conquista do ideal de vida. Ele não é medido pelo bem estar transitório e sim pelo modo de se saber lutar em vista do objetivo maior. Sabe-se, então, que se está caminhando com o próprio Deus, que recompensa cada um que sabe dar de si pela convivência na justiça e fraternidade.

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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