terça-feira, 11 de outubro de 2011

As Núpcias reais do filho


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Dom Caetano Ferrari

Bispo de Bauru - SP

Um rei preparou um banquete nupcial para o seu filho, é a parábola evangélica lida na Liturgia dominical de hoje – Mt 22, 1-14. Jesus dirige essa parábola a seus inimigos e críticos, isto é, aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, que sempre se opuseram a Ele. Mais uma vez para dizer-lhes que o Reino dos céus destinado primeiramente aos filhos de Israel, começando por sua liderança, lhes será tirado, tendo em vista sua obstinação em não acolhê-lo, e será entregue aos pobres e marginalizados, maus e bons. E Jesus conclui a história afirmando: “Por isso muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”.

Na parábola aparece muito claramente que o rei, após preparar um grande banquete, enviou por portadores pessoais convite para seus convidados preferenciais – chefes religiosos e políticos do povo: sacerdotes, fariseus, escribas, senadores. Mas estes não só recusaram o convite, mesmo antepondo interesses corriqueiros que no fundo revelavam o desprezo pelo rei e o seu filho, como fizeram correr os mensageiros com agressões físicas, ferindo a uns e matando a outros. Mateus acrescentou no seu Evangelho que: “O rei ficou indignado e mandou suas tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles” (v.7), numa alusão muito evidente ao fato histórico da destruição de Jerusalém com seu Templo pelo exército romano de Tito, no ano 70. A comunidade judeu-cristã primitiva, para quem Mateus escreveu seu Evangelho, presenciou desoladamente a destruição de Jerusalém.
O soberano rei enviou, então, outros mensageiros para convidar outro grupo de convidados: pessoas encontradas pelas estradas e encruzilhadas, fossem quem fossem, inclusive maus e bons. Segundo a visão de Mateus, um publicano convertido, o Reino de Deus é oferecido por Jesus também aos pecadores, prostitutas e cobradores de impostos. Assim é de fato a Igreja, também hoje, aquela que a todos convida e acolhe, sejam pagãos ou crentes, santos ou pecadores, perfeitos ou fracos na fé. Ela é, sobretudo, a santa casa de misericórdia dos e para os pecadores, os pobres e sofredores abandonados nas encruzilhadas e esquinas da vida. E não é, como desejam alguns, o reduto fechado dos bons, puros e salvos, nem é uma das seitas de eleitos.
A sala da festa ficou cheia de convidados, o que muito agradou ao rei. No entanto, havia entre os convidados um homem que não estava usando o traje de festa, a veste nupcial. Calando-se sem nada responder por que assim se encontrava, foi ele expulso da festa pelo rei que o pôs porta à fora na escuridão da noite no relento. O que isso significa? Que o convite é feito a todos, maus e bons, no entanto, há uma contrapartida exigida de uns e outros, trajarem a veste da festa. Isto é, de novo segundo a visão de Mateus, para quem seu Evangelho focaliza o tema da prática da justiça do Reino, significa responder ao convite com gratidão a Deus, pois o Reino e o seu convite são dádivas ofertadas por Ele a todos. Significa converter-se e pôr-se no caminho da prática da justiça do Reino, solidarizando-se com todos na vivência da fé e do bem, por isso trajando as vestes da justiça do Reino. Se as prostitutas e os cobradores de impostos ou os pecadores e maus vos precederem no reino não é que eles receberam algum privilégio, nem o de serem convidados por primeiro, mas é que souberam aproveitar, ainda que na última hora como no caso do bom ladrão, a feliz oportunidade da graça de Deus que lhes foi dada.
Nós os batizados somos, hoje, os convidados preferenciais à mesa do pão da Eucaristia, da Palavra e da Caridade em nossas Igrejas, que nos preparam para a participação ao banquete da vida eterna. Qual é a nossa resposta? Que ninguém recuse o convite, nem ouse entrar nele sem a veste da justiça!

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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