terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A crise da água

Dom Gil Antônio Moreira

A crise da água


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo de Juiz de Fora (MG)

Enfrentamos hoje em dia sérios problemas com a escassez e a qualidade da água, elemento básico, indispensável para que a vida continue existindo no planeta terra. As chuvas têm sido raras e insuficientes para encher nossos reservatórios. Sentimos, mais do nunca, o dever de cuidar bem do uso e da boa qualidade da água, para que todos tenham vida saudável. 

Partindo dos sérios problemas que a humanidade toda, e de modo específico, a população brasileira, enfrenta atualmente a respeito do uso da água que a natureza prodigamente nos oferece, há de haver ação conjunta para a busca da solução.
Sabe-se que a natureza, há milhões de anos, tem cumprido o seu papel de manter em equilíbrio o eco-sistema com o seu ciclo hidrológico. Nossos lagos e rios contêm cerca de 200 mil Km cúbicos de água doce no planeta, quantidade mais que suficiente para manter os seres vivos na terra. O ciclo hidrológico, com a evaporação das águas do mar e formação de chuvas, repõe 40 vezes mais o necessário para cada pessoa viver. Ou seja, se este sistema, de repente, parasse de funcionar, ainda haveria água para cada ser humano viver por mais 40 anos.
Contudo esta generosidade da natureza não é correspondida pela maneira comportamental dos seres humanos. Basta verificarmos a questão da poluição ambiental com 80 por cento de esgotos domésticos e industriais jogados em nossos rios, para darmos um exemplo brasileiro. É certamente incompreensível, por exemplo, que uma indústria retire gratuitamente água de poços artesianos, e depois, verta todo o seu esgoto residual, com produtos químicos e tóxicos nos rios, causando danos irreparáveis para a população, comprometendo, muitas vezes destruindo por completo, a fauna fluvial. O lucro é só da empresa, mas o prejuízo é da população e, sobretudo da população mais pobre que não tem recursos suficientes para buscar formas alternativas. Problema mais grave ainda é a morte real de muitos rios e mananciais, como no caso do oeste baiano onde mais de trinta nascentes e pequenos afluentes do rio São Francisco já desapareceram, por causa do desmatamento, e de outros fatores. O brasileiro viu, com espanto, as nascentes do São Francisco simplesmente secarem por longo tempo. Quem imaginaria!
Outro problema é o desperdício da água, sobretudo nas cidades, muitas vezes de forma abusiva, causando prejuízo a que tem pouca água, o que tem resultado em algumas cidades em racionamentos frequentes. É preciso pensar desde os grandes desperdícios industriais, na agricultura até nos abusos domésticos como, por exemplo, na lavagem de calçadas, carros e até mesmo no excesso de água usada no banho pessoal. Já faz parte das campanhas públicas o dito Sabendo usar não vai faltar.
Outro problema ainda é a falta de política pública mais eficiente para o bom uso da água e para o melhor aproveitamento dos recursos hídricos do país, como por exemplo, em relação ao semi-árido brasileiro. Melhor aproveitamento das águas pluviais, definição mais equitativa de impostos para uso diferenciado da água, distinguindo a utilização para necessidades pessoais daquelas de fins lucrativos, como uso industrial, esgoto, irrigação agrícola, ou o uso para fins de lazer.
Outros problemas existem, outras soluções podem ser propostas. Mas certamente tudo depende de boa educação para o bom uso da água e o respeito pela natureza. Isto depende de mim e de você. Não neguemos a nossa parte para que não venha faltar a ninguém a água, fonte de vida para todos.

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Reflexão

Todas as pessoas costumam falar em justiça ,mas para a maioria delas o fundamento dessa justiça são princípios e valores humanos, principalmente o que está escrito nas leis. Para nós cristãos, esse critério não é suficiente para entendermos verdadeiramente o que é justiça. Não é suficiente em primeiro lugar porque nem tudo o que é legal, é justo ou moral, como por exemplo a legalização do divórcio, do aborto ou da eutanásia. Também devemos levar em consideração que todas as pessoas, embora sejam seres naturais, possuem um dom de Deus que faz delas superiores à natureza, participantes da vida divina, e como Deus é amor, o amor é, para quem crê, o único e verdadeiro critério da justiça

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